Como seria viver em um cometa?

como seria viver em um cometa
O que aconteceria se tivéssemos que viver algum tempo na superfície do famoso Cometa Halley? Quais seriam as experiências mais marcantes?


Essa matéria faz parte da série especial 'Como seria viver em outros planetas?' Confira todos os episódios clicando aqui.

No passado, os cometas eram vistos como "sinais de desgraça" ou como objetos apocalípticos. Graças ao avanço astronômico, hoje sabemos que os cometas são, na verdade, grandes rochas repletas de gelo sujo e muita poeira, localizados em sua maioria nos confins do Sistema Solar. Assim como os planetas e asteroides, os cometas orbitam o nosso Sol, e quando se aproximam demais da nossa estrela, iniciam um processo de sublimação, quando parte de seu gelo começa a derreter, deixando um rastro de detritos e gases por onde passam.

Hoje os cometas são vistos como objetos importantes que podem ajudar os cientistas a entender a evolução de todo o Sistema Solar. Além disso, eles possuem muita água, que através de processos não tão complexos pode ser transformada em combustível.




Em novembro de 2014, a Agência Espacial Europeia (ESA) enviou um orbitador e um pousador ao cometa 67P/ Churyumov-Gerasimenko. O pousador Philae se tornou o primeiro a pousar controladamente na superfície de um cometa: um feito inédito e histórico! Mas como seria se nós, seres-humanos, pousássemos na superfície de um cometa? Quais seriam as experiências que teríamos nesses mundos de gelo?

Cometa 67P - C-G
Cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko fotografado pela sonda Rosetta.
Créditos: ESA / Rosetta

Nas últimas décadas, diversas sondas foram enviadas para estudar cometas, e com isso, ganhamos bastante conhecimento sobre eles. Em 1986, a nave espacial Giotto, da Europa, sobrevoou a coma (grande nuvem de gás e poeira difusa que circunda o núcleo do cometa) do cometa Halley. Essa missão foi responsável por nos trazer as primeiras imagens do núcleo de um cometa. Em 2004, a sonda Stardust, da NASA, coletou amostras da coma do cometa Wild 2, e em 2005, a missão Deep Impact colidiu com o cometa Temple 1, a fim de estudar seu núcleo.

Vivendo em um cometa - infografico
Fotografias feitas por diversas missões revelaram que o núcleo dos cometas são relativamente pequenos, geralmente entre 1 km e algumas dezenas de km. O formato dos cometas nem sempre é arredondado, e muitos são ovais ou irregulares, como peras.

"A razão pela qual eles são tão irregulares é porque a gravidade é baixa", diz Althea Moorhead, pesquisadora do Meteoroid Environments Office, da NASA. "Eu acredito que seria estranho viver em um cometa por essa razão."

Na Terra, ou em outros corpos massivos, a gravidade é forte o suficiente para atrair tudo na direção de seu centro. Mas se o objeto não possui tanta massa, uma montanha em deslisamento pode ser atraída para um lado ou para o outro, já que o poder gravitacional não é intenso o suficiente para aglutinar tudo em um único ponto.

Para se ter uma ideia, a força gravitacional do cometa Halley é muito, muito menor do que a da Terra. Se você estiver na superfície desse cometa, e deixar cair um objeto na altura de seu ombro, levaria cerca de 2 minutos até que ele atingisse o solo. Se retirássemos o Monte Everest do nosso planeta, e o deixássemos vagar pelo espaço, o poder gravitacional seria igual ao do cometa Halley...

"A gravidade do cometa Halley é tão baixa que se você pulasse a uma altura de apenas 20 centímetros, você escaparia dele e iria para o espaço, literalmente", disse Althea. Portanto, se estivéssemos na superfície de um cometa de massa parecida, teríamos que ter muito cuidado com qualquer atividade física. Uma boa alternativa seria um sistema de arpões que se disparasse automaticamente,fixando-se ao solo conforme o andar do astronauta, a fim de assegurar que ele não fosse lançado para o espaço...

Andando na superfície de um cometa com arpões
Ilustração artística mostra um astronauta explorando a superfície de um cometa com a ajuda de arpões,
a fim de evitar que ele seja lançado para o espaço por conta da baixa gravidade.
Créditos: Galeria do Meteorito         Clique na imagem para ampliar

Por outro lado, o formato irregular dos cometas dariam um ótimo local de explorações, com penhascos, crateras e grandes cavidades. Imagine chegar ao topo de um penhasco gigantesco e olhar para o espaço?! O único porém é que em pouco tempo você iria conhecer todo o cometa como a palma da sua mão, já que no caso do cometa Halley, sua área de superfície total é pouco maior do que a ilha principal de Fernando de Noronha, ou igual a 364 quilômetros quadrados.




Na maior parte do tempo, ao olhar para o alto, veríamos um céu estrelado e bem escuro, isso na maior parte do tempo. Os cometas são conhecidos por suas coma (nuvens difusas de gás e poeira), mas elas só ocorrem quando eles se aproximam do Sol a ponto do gelo começar a sublimar. Nesse caso, se você estivesse em um cometa quando ele estivesse se aproximando de nossa estrela (próximo da órbita de Marte), veríamos um céu muito nebuloso, ou melhor, toda a superfície do cometa seria parecida com aqueles dias de neblina, como se estivéssemos descendo a serra do mar para chegar na praia. Seria difícil distinguir as regiões, e provavelmente não veríamos nada que estivesse a mais de 10 metros... E as estrelas?! Esqueça o céu! Seja de dia ou de noite (um dia completo no cometa Halley dura entre 2.2 e 7.4 dias terrestres), enxergaríamos apenas uma neblina muito espessa...

Como seria viver em um cometa - muita neblina em sua superfície
Ilustração artística mostra como seria a neblina na superfície de um cometa, e como poderia ser a visão de um astronauta.
Créditos: Galeria do Meteorito         Clique na imagem para ampliar

Grande parte dos cometas têm uma órbita altamente elíptica, colocando os próximos do Cinturão de Kuiper (além da órbita de Netuno) até o Sistema Solar interior. Por conta disso, as temperaturas na superfície dos cometas podem variar drasticamente ao longo do tempo.

Quando a sonda Giotto visitou o Cometa Halley, em 1986, ele estava a apenas 0.9 UA do Sol (1 Unidade Astronômica equivale a distância média entre a Terra e o Sol), e sua temperatura de superfície era de 77°C. Rosetta, por sua vez, registrou temperaturas de aproximadamente -70°C no cometa 67P/C-G, em julho de 2014, quando o cometa estava a 3 UA do Sol.




Essa órbita altamente alongada também significa que o tempo necessário para se comunicar com a Terra varie drasticamente. Em alguns momentos, levariam apenas alguns minutos para os sinais serem entregues, quase possibilitando vídeo-chamadas... em outros períodos, levariam horas para um simples "alô" chegar ao seu destino...






Imagens: (capa-ilustração/Galeria do Meteorito) / ESA / Rosetta / NASA / Galeria do Meteorito
27/09/16

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4 comentários:

  1. Acompanho a série desde o começo e posso afirmar a altissima qualidade de todos os capítulos. Essa simulaçāo de como seria viver em um cometa foi uma das que mais gostei! Parabéns ao site GDM e muita força e dedicação pra vcs em 2017!

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  2. Realmente muito boa a matéria, e toda a série.

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